Adolfo Colen
Pedro Esteban
Gustavo Macieira
Tungo, O Dungo
Segunda-feira, Junho 07, 2004

Escute, antes que o mundo acabe...

No meio da década de 80 não se pensava ainda nessa onda de Rap e Hip Hop, mas o REM ousou ao escrever e cantar uma música que, em alguns aspectos lembra muito esses rítmos. Trata-se de "It´s the end of the world". O Rap é composto por um jogo de palavras, em busca de rima, consistência argumentativa, protestos... em um tempo onde as músicas se utilizavam de uma estrutura coerente Michael Stipe compôs um aglomerado de palavras tão ilógicas que nunca mais alguém conseguiu expressar o caos do mundo com tamanha precisão.

Se não bastasse isso ele compôs um rock clássico, referência obrigatória para quem quer estar por dentro do que de melhor rolou na década de 80. Aliás, presente no álbum Document, um dos dois albuns clássicos da banda (o outro é Automatic for The People, de 1992 e que traz a depressiva Everybody Hurts), tornou-se um verdadeiro hino, que nos dias de hoje é responsável pelo encerramento dos shows da banda, que sempre levam seus fãs aos limites extremos entre a sanidade e o delírio.

A música foi um petardo para o mundo todo e, na Itália, surgiu uma versão que, se está longe do brilho da original tem seu valor a título de curiosidade, trata-se de "A che ora e' la fine del mondo", do Ligabue, que acaba sendo uma mistura de "Uma partida de Futebol" do Skank e It's the end... O caos do mundo é substituído pelo caos existente dentro das quatro linhas, durante os 90 minutos de uma partida. Alguns já devem tê-la ouvido, eis que foi música de fundo em uma reportagem sobre as atuações de Kaka no futebol italiano no canal ESPN Brasil. Do clássico original restou a melodia, o suficiente para manter o valor documental desta versão, que, no entanto, fica um pouco aquém...

It's the end of the world as we know (and I feel fine) foi a música oitentista mais noventista já gravada, foi uma verdadeira previsão de fazer inveja a Nostradamus, em todos os sentidos, seja linguístico, musical ou social mesmo, sua influência aparece desde em raps até comercial do Master Card, é um som imprescindível...


Escrito por GUSTAVO MACIEIRA às 9:28 PM

Ficha Técnica:


Terça-feira, Junho 01, 2004

DVD

Brian Wilson - Pet Sounds Live in London (2003)

Qualquer amante de música que preze sua coleção conhece Pet Sounds, conhece a história do album, e tem sua própria opinião sobre a obra mais importante de Brian Wilson, a alma complicada dos Beach Boys. O que o iniciante precisa saber é que esse disco marcou uma idéia nova de se fazer (e gravar) canções pop, não tem nada a ver com as canções anteriores sobre surf e carros da banda, e é lindo de morrer.

A disputa entre os Beatles e Wilson para quem gravaria o disco mais sofisticado do rock é lendária, que os críticos mais entusiasmados até já encaixaram em um cronograma, que vai mais ou menos assim:

Beatles lançam Rubber Soul. Brian Wilson fica admirado, assustado e com inveja. Faz Pet Sounds. Paul McCartney fica admirado, assustado e com inveja. Compõe Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band. Brian Wilson fica encantado, assustado, tenta gravar Smile e perde a sanidade.

Corta para 2002, e Wilson, com efeitos colaterais claros de remédios contra esquizofrenia, resolve percorrer a Europa com os Wondermints, uma maravilhosa banda com fixação por Beach Boys. E acima de tudo, decide nos shows tocar Pet Sounds completo, na ordem certa das músicas, fielmente aos arranjos originais. Aí o mais desavisado pode pensar, que para uma banda de rock, estilo basicamente composto para baixo, guitarra e bateria, isso deve ser fácil demais.

Mas aí é que a coisa complica. Pet Sounds foi o fundador de um estilo de música conhecido atualmente como "pop de câmara", onde orquestrações eram usadas de forma luxuriante para aumentar o impacto das canções, assim como instrumentos pouco comuns ao estilo pop-rock de ser, como flautas, vibrafones, gaitas dos tipos mais diferentes, percussões alternativas e até mesmo um teremin.

Wilson iniciou realmente a empreitada em 2000, nos EUA, onde fez uma série de shows com a banda mais orquestra, sempre para platéias lotadas e saudosas. Mas o show desse DVD traz somente a banda, o que torna tudo ainda mais impressionante.

Ao se ouvir os primeiros acordes de Wouldn´t It Be Nice, é quase impossível para quem ama o disco não sentir um frio na espinha, de tão perfeito é o som, as nuances parecidíssimas com as de Pet Sounds. Mais assombroso ainda é o nível quase perfeito das harmonias vocais, o ponto alto dos Beach Boys, nas quais os Wondermints não deixam nada a dever. É interessante notar que o único elo fraco é o próprio Wilson, cuja voz compreensivelmente não alcança mais os registros que antes não tinha esforço em vocalizar.

Mas é ele o dono do show, o compositor das músicas, a lenda no palco, e a alma da apresentação. Sempre conta uma historinha curta antes das músicas, brinca com a platéia, explica o significado das canções. E que canções...

A delicadeza e complexidade dos arranjos, e a competência dos músicos em os interpretar nunca é abaixo de notável. Também é ótimo perceber que eles adoram as músicas, tocando-as com alegria e emoção. Cada um deve ter sua preferidas, e não cabe a mim destacar alguma em especial, então somente cito minhas preferidas: God Only Knows, Don´t Talk (Put Your Head On My Shoulder), Caroline No e Sloop John B.

Eu somente tenho duas ressalvas. A primeira é a duração do show, que é muito maior na realidade, mas que só mostra as músicas de Pet Sounds e a ótima Good Vibrations como bônus. Wilson em todos os seus shows tocava músicas do início de carreira, seguidas por Pet Sounds e depois algumas músicas-solo e uns hits perenes. Recortaram os shows, e isso é um crime.

A segunda é a edição atrapalhada das imagens, que se resumem a close-ups individuais dos membros da banda, e nenhuma imagem panorâmica do palco. O ritmo fica nervoso, prejudicando a leveza e fluxo das canções. Eu entendo que talvez seja pelo pequeno espaço do teatro, onde as carecas dos expectadores saudosos estavam quase ao nível dos braços do guitarrista e baixista. Talvez elas causassem muito brilho para "iluminação natural"...

Mas de qualquer maneira, é um show clássico que vale a pena conhecer, mesmo que não conheça o disco original. Provavelmente Brian Wilson não estará muito tempo por aí, e quem quer ter um gostinho da história do rock precisa se apressar.

Cotação: 4 estrelas

Extras: ótimo documentário de 40 minutos sobre a composição do disco original.

Escrito por ADOLFO COLEN às 3:11 AM

Ficha Técnica:


Arquivos
on-line
This page is powered by Blogger. Isn't yours?
IE, 1024x768 ou nada? - Reconstrução

layout:omutante