Adolfo Colen
Pedro Esteban
Gustavo Macieira
Tungo, O Dungo
Sexta-feira, Janeiro 30, 2004

Everything is Ending Here ¿ A Tribute to Pavement

Nunca escondí de ninguém que ¿Here¿ do Pavement é uma das minhas músucas preferidas, além de Ter uma das mais inspiradas e apaixonadas declarações de amor que já ví nos versos ¿I am the only one who laughts at your jokes when they are so bad / and your jokes are always bad¿. Por essa singela canção fiquei conhecendo outra grande banda, a qual tive o privilégio de assistir no derradeiro Free Jazz, após baixar uma versão cover ao vivo.

Essa música nos traz a vertente baladeira da banda liderada pelo, agora em carreira solo, Stephen Malkmus. Uma das maiores marcas do Pavement foi a capacidade de se transformar, se renovar e essa capacidade só ficou escondida do penúltimo para o último disco, todavia, a androgenia não existia somente entre um CD e outro, mas dentro do mesmo CD. O vocal propositadamente desafinado de Malkmus passeia por baladas até músicas com vocais guturais de trash rock, nos incentivando a cantar junto.

Pois bem, chegou o fim da linha, a banda acabou e deixou marcas; talvez, a maior delas não seja as músicas em si, pois essas qualquer banda de 3ª deixaria, mas sim a legião de fies seguidores, de bandas que nela se inspiram e essa inspiração pode ser escutada e admirada em ¿Everything is Ending Here ¿ A Tribute to Pavement¿, um CD duplo, lançado na Itália por uma gravadora local, repleto de bandas completamente desconhecidas, mas que fazem muito mais que dar conta do recado, fazem um tributo digno a uma das mais revolucionárias bandas surgidas nos anos 90.

Ao contrário de Tributos recentes como o do Ramones, este tem paixão, tem uma série de bandas dando o seu melhor, ainda que não seja muito bom... elas tentam acertar mesmo e acabam acertando, ademais, também aqui não temos um Marylin Manson assassinando um clássico, mas sim Magoo com uma versão próxima a perfeição de ¿Perfume-V¿, Tindersticks, Lunchbox e Nunber One com suas próprias versões de ¿Here¿, uma interpretação muito exótica de ¿Shady Lane¿ por Solex, muita distorção na interpretação de Quickspace para ¿We¿re Underused¿ e por aí vai.

CD para ser ouvido e cantado junto, o desafino é marca da banda e em um CD tributo tinha que permanecer, portanto, não precisa Ter vergonha de soltar a voz! Não existe momento adequado, pois ele é o agora e é o sempre, foi ontem, é hoje e o nunca. A experiência será sempre reconfortante e emocionante, muito embora seja excepcionalmente única a chance de escutá-lo em uma noite gelada, sozinho em um pequeno e sujo quarto de hotel, observando a neve cair pela janela no inverno Londrino...


Escrito por GUSTAVO MACIEIRA às 11:02 PM

Ficha Técnica:


Domingo, Janeiro 25, 2004

Pequenas Novidades


Hoje vou dar uma passada no pouco que li (ainda) da melhor revista de música e entretenimento em língua inglesa do mundo: a Uncut.
Quem não conhece, é uma edição britânica focada principalmente em música e cinema, e que em toda edição disponibiliza um CD, com as temáticas mais variadas. A desse mês é com músicas dos 15 melhores discos do ano segundo o staff da revista. Pra quem pode gastar 50 reais com música e informação (e sei que é pouca gente), vale a pena.

Entrevista com Bono Vox sobre o novo disco do U2:

Ele continua uma das personalidades mais divertidas do rock. O novo album deve sair no início desse ano, com produção de Chris Thomas (que trabalhou em partes do White Album, Never Mind The Bollocks, Dark Side of The Moon), ao contrário da dupla usual de Brian Eno e Daniel Lanois). Confira uns trechos:

"Descrevo o novo album como punk rock feito em Vênus, com guitarras no volume 11. Escolhemos um novo produtor porque bem...Bem... Brian e Daniel não gostam muito de música alta. E quem brilha é The Edge, e suas guitarras. É um album feito por um homem que está realmente cansado da visão de seu vocalista dando apertos de mão em políticos. Quando se tem tanto nojo e raiva suprimida quanto Edge tem, eu acho que número 11 é o único lugar a se ir. E, afinal de contas, ele tem um estilo e som próprios." Cutucado pela revista que não é só isso que Edge possui, pois é dono de mansão, hotel, boate, Bono se sai com essa: " É, e ele está lentamente as queimando e destruindo".

O que se tem que ter em mente é que esse papo de guitarras, Edge nervoso e punk rock ronda as declarações do Sr Vox há alguns anos, e deu em Pop (um disco abaixo da média, muito eletrônico). Mas também rondou a mídia durante o último album, All That You Can´t Live behind, que é o melhor do U2 desde Achtung Baby. É esperar, e torcer.

Lista dos 10 Melhores Discos e Filmes do Ano

Discos: 1. Warren Zevon - The Wind
2. Emmylou Harris - Stumble Into Grace
3. John Cale - Hobo Sapiens
4. Willard Grant Conspiracy - Regard The End
5. Robert Wyatt - Cuckooland
Filmes: 1. Cidade de Deus
2. Kill Bill
3. Adaptação
4. Lilya 4-Ever
5. O Pianista

Bem, muita coisa diferente do usual da parte de CDs, mas é importante perceber que a revista é dedicada a estilos musicais mais adultos, portanto não existe muito hype. Warren Zevon, o ganhador de melhor disco do ano, o fez sabendo de sua doença terminal, e morreu logo após essas gravações. Foi inclusive entrevistado pelo Letterman, e foi um homem divertido e sensível até o fim. Depois posso falar sobre mais alguns.

É interessante a votação de Cidade de Deus como o melhor filme do ano. Agradou em cheio os britânicos.

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Bem, meu saco acabou de ficar digitando essas coisas. Só deixo mais uma notícia que achei interessante por lá: Eric Clapton gravou dois discos, um com músicas novas e outro somente regravações do mestre do blues Robert Johnson. Ainda não sabe qual irá lançar primeiro, mas qualquer um que ouviu From The Cradle, o último disco de covers dele, já sabe qual deveria ser lançado mais rapidamente.

Escrito por ADOLFO COLEN às 11:09 PM

Ficha Técnica:


Quarta-feira, Janeiro 21, 2004

Férias, e nada de novidades interessantes nas lojas. Artistas mergulhando nas águas do Caribe, nas praias brasileiras o velho e novo batidão. E isso vai até o carnaval. Mal posso esperar para ouvir Cara Estranho em ritmo Axé...

Portanto, vou reeditar uma resenha antiga de um de meus discos favoritos, publicada no Cardiotopia.

Essencial

Achtung Baby - U2 (1991)

1992 foi um ano de viradas em minha vida, e taí a trilha sonora dessa época.

Nessa época, se alguém me perguntasse sobre o U2, eu diria: Ah, a banda irlandesa que faz músicas bonitas, meio épicas, mas que não dizem muito sobre minha vida. Preferia os sons mais soturnos do Cure, do Echo and the Bunnymen, ou até mesmo o Britpop da época, de nomes já esquecidos por muita gente, como os Happy Mondays, Curve, Jesus Jones. Pegava minha dose de melancolia diária, sendo minha agulha a que deslizava pelos sulcos do vinil.

Minha irmã mais nova comprou Achtung Baby na época em que ganhamos nosso primeiro CD Player, enquanto eu comprava o novo do Teenage Fanclub e Honey´s Dead. Mas, de repente aquele disquinho cheio de fotos coloridas começou a tocar no som lá de casa, simplesmente fui fisgado.

Começa com a bateria seca de Zoo Station, que imediatamente é soterrada com guitarras cheias de estáticas, Então, como uma tempestade, entra a voz suave de Bono Vox tratada eletronicamente para ficar suja, cantando: I´m ready, I´m ready for the laughing gas, I´m ready, I´m ready for what´s next. Não havia como escapar daquilo.

Era novo, era sexy, era o doce perigoso, de mil curvas na garganta, que arranha e acaricia ao mesmo tempo. Emendava com um rock de padrões convecionais (Even Better Than The Real Thing), para depois somente me soterrar na emoção de One, uma de minhas músicas preferidas de todos os tempos. A emoção na voz de Bono, a letra que dizia uma verdade que tanto podia ser de pai para filho como de homem para uma mulher. E vice versa. We are one, but we are not the same, we get to carry each other, carry each other, one.

Emendava com uma das músicas sobre sedução pura. Simples. Suja. Until The End of The World.

Em 1992, estava começando a pôr em prática o que o adolescente somente imagina, pelo menos naquela época. Deixava o amor platônico para trás; a limpeza do amor em pensamento, para sujar minhas mãos no mundo. De repente eu não suspirava em beijar, e simplesmente prendia a respiração em um beijo. Não imaginava mais namoradas em torres altas de um castelo para sentir sua pele em contato com a minha.

Em 1992 eu descobri a topografia dos poros.

Quando no último show da turnê do album Rattle and Hum Bono Vox se despediu da platéia dizendo que agora teriam que sonhar tudo novamente, não sei se ele imaginava que teria um sonho molhado. Achtung Baby é o U2 descobrindo como falar de amor, descobrindo que toda a paz do mundo não impede uma guerra dentro de nós. E que talvez nessa guerra os armistícios deixem tantas cicatrizes pessoais quanto muitas granadas e balas algum dia conseguiram.

Possui vários aspectos do amor, desde a pura sedução (Mysterious Ways), passando pela maldade (You Are so Cruel), chegando até a redenção (Love is Blindness). Tudo isso embalado nos ritmos mais sinuosos, nas letras mais inspiradas, nas guitarras mais estridentes, nos vocais mais emocionados. Achtung Baby é superlativo.

Portanto, esse disco cresceu comigo. Me acompanhou em cada viagem, em cada festa em que me achei e me perdi mil vezes. Embalou beijos, brigas, sexo, solidão. E quando ele que está tentando abraçar o mundo com seus pequenos braços, eu acredito no que ele diz.

Porque naquela época eu estava tentando abraçar o mundo, pela primeira vez.

E não parei desde então.

Cotação: 5 estrelas

Músicas: Zoo Station/ Even Better Than The Real Thing/ One/ Until The End Of The World/ Who's Gonna Ride Your Wild Horses/ You´re So Cruel/ Mysterious Ways/ The Fly/ Trying To Throw Your Arms Around The World/Ultraviolet/Love is Blindness

Escrito por ADOLFO COLEN às 12:42 AM

Ficha Técnica:


Quinta-feira, Janeiro 08, 2004

Don't let yourself go, everybody cries and everybody hurts sometimes

As vezes tudo está errado, é hora de cantar sozinho... quando o dia é uma noite solitária... me lembro daquela noite, alta madrugada... calor, mas nada de solidão, faz 3 anos, ou algumas horas... sim, Everybody Hurts, sometimes. Foi a forma de MIchael Stipe desencorajar os suicidas, mas não sei até que ponto funciona... a música é uma daquelas raras canções que penetram fundo em nossos seres, a melancolia de seu rico arranjo instrumental, de sua letra, afetam nosso cérebro muito antes da própria mensagem. Nosso cérebro percebe as emoções em momentos muito distintos, primeiro a agonia, depois a tristeza, depois a emoção, o amor, a alegria.

Everybody Hurts é, para uns, uma música que só se deve escutar em momentos de depressão, ela traria conforto ou mais um motivo para chorar em vão, estúpidos que somos por horas de pranto e lamentações. Jamais seria louco de pedir para que alguém escutasse uma música despindo-se de seus sentimentos porque todos se machucam ao menos algumas vezes na vida. Pode existir todo um contexto por trás da música, um CD simplesmente perfeito para uns, ou simplesmente 10 horas em pé ao lado de alguém especial, coberto de suor e poeira, apenas com forças para se mater em pé e uma pequena reserva para desandar a pular na derradeira canção; ou pode existir apenas um espaço vazio deixado por alguém que se foi e que não mais voltará...

Apesar de tudo eu tomarei a liberdade de lhes sugerir, sentem-se em uma cadeira confortável, cantem baixinho uma canção, tentem associá-la a momentos felizes, tentem enganar seus cérebros, fazê-los pular algumas etapas de percepção. Percebam que há duas músicas em uma, cada momento pede uma interpretação que modifica por inteiro esta bela canção. Cada uma melhor que a outra, porque, por mais que se esteja sozinho na vida, sempre restarão motivos para sorrir, porque todos se machucam e quase todos se levantam e voltam a sorrir...

Agora me dêem licença que eu preciso retirar um cisco do meu olho...

Escrito por GUSTAVO MACIEIRA às 11:36 AM

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Segunda-feira, Janeiro 05, 2004

Pitty e a Tradição Oral


Humberto Gessinger, em um de seus (raríssimos) momentos de lucidez, disse que a juventude é uma banda em uma propaganda de refrigerantes. Nada mais correto no fim dos anos 80, nada mais correto hoje em dia. Quando mais jovens, somos impressionáveis principalmente pelo pacote, e não pelo conteúdo. Por isso, me corta o coração o que tenho a dizer sobre a baiana Pitty, pois ela tem boas intenções.

Em sua estréia, Admirável Chip Novo, a cantora recria para os dias de hoje canções de protesto, raiva adolescente e noções rudimentares de antropologia temperadas com o que há de mais burocrático no som pesado atual. Traduzindo: guitarras pesadas e repetitivas, toques eletrônicos, mais do mesmo.

A banda é afiada, a voz dela é boa, mas monocórdica. Entremeado nisso tudo existem letras recheadas de slogans, que ao tentar atiçar o ouvinte a ser diferente afundam no lodaçal do lugar comum.

Mas é interessante notar que Pitty parece querer ressucitar uma das tradições mais antigas da humanidade: a profusão ininterrupta e irrefreável de ditados, que como frases de ordem são passadas de geração a geração, mas que nos dias de hoje parecem soar como novidade no mundo digitalizado.

Em Máscara, o primeiro hit, ela já abre a cartilha do pensamento filosófico de botequim universal: "O importante é ser você, mesmo que seja estranho." Insere-se aí a vocalização mais estranha de bizarro (será a única?) no cancioneiro nacional. Mas não é o único ditado que ouviremos no CD.

Em Semana Que Vem, talvez a mais emblemática dessa tendência, ela extrapola: em um momento é "não deixe nada pra depois (...) pq semana que vem pode não chegar", em outro é "o futuro é o presente, e o presente já passou".

Teto de Vidro já diz a sabedoria popular no título, na transposição mais clara de um ditado, retirado diretamente de um almanaque: "quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra". Coincidentemente é a melhor do disco.

Ela até modifica a seu bel prazer um também famoso, em O Lobo: "o homem é o lodo do homem, o lobo".

De alguma maneira imagino, em meus delírios, um show da cantora em que toda a platéia, após ter feito pesquisa com os avós, empunhe cartazes com dizeres antigos: uma menina com camisa do Linkin Park gritando um "quem espera sempre alcança", enquanto a seu lado um rapaz cheio de piercings veste com orgulho uma camisa onde está escrito "casa de ferreiro, espeto de pau".

Se for para reacender a tradição oral folclórica, apoio essa idéia.

Escrito por ADOLFO COLEN às 11:37 PM

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Domingo, Janeiro 04, 2004

Trilhas Sonoras - Varsity Blues



Ainda no campo das trilhas sonoras, mas mudando um pouco o enfoque, outra boa pedida é a trilha de Varsity Blues. O filme trata-se de diversão de adolescente americano, ou seja, não vale a pena, quando comprei o CD ele ainda nem tinha título em português, depois passou na HBO, mas não me lembro o nome.

Alguns nomes de peso estão presentes no CD. Green Day, Foo Fighters, Collective Soul, Van Halen... essas bandas ficam encarregadas da parte comercial do CD, com seus rocks mainstreams. Nenhuma delas gravou uma música especial para a trilha, sendo as canções retiradas de seus lançamentos recentes numa clara mostra de qual era a pretensão desta trilha sonora, ou seja, pendurar-se no sucesso dos CDs individuais de cada banda.

A música de trabalho do CD foi "Nice Guys Finish Last", do Green Day, que chegou até a render um irritante clipe na MTV. Algumas bandas medianas tb deram o ar da graça no CD, com destaque para "Are You Ready for The Fallout?" do Fast Ball e "Horror Show" do Third Eye Blind. Após o sucesso de Jimmy's Fantasy, no início da década de 90, o Redd Kross aparece com "Teen Competition" e, de resto temos uma série de bandas punk com excelentes músicas para se escutar sem compromisso.

Loudmouth dá o ponta pé inicial com "Fly", Janus Stark traz a melhor faixa do CD, a enfurecida "Every Little Things Counts", Simon Says vem com a boa "Ship Jumper" que lembra um pouco o American Traditional Rock do Spin Doctors, mas com mais peso nas guitarras. O Monster Magnetics vem com a pesada "Kick Out The Jams", seguida por "Black Eye", do Black Lab, uma bela música. O momento mais dispensável do CD está na performance do Days Of The New e sua "Two Faces". O Sprung Monkey, com "Thunderstruck", num clima Marilyn Masoniano continua a dar um bom rítmo no CD, que finaliza suavemente com o Folk Rock "Varsity Blue", do Caroline's Spine, que nos remete imediatamente aos vocais de Brad Roberts, do Crash Test Dummies.

No final uma grande certeza: quem sustenta o CD são as bandas desconhecidas, as performances enfadonhas de Green Day e Foo Fighters servem somente para dar corpo a esta boa trilha...

Cotação: 3 estrelas



Escrito por GUSTAVO MACIEIRA às 12:57 PM

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