Adolfo Colen
Pedro Esteban
Gustavo Macieira
Tungo, O Dungo
Sexta-feira, Março 26, 2004

Construindo Um Irmandade


Vendo o video novo do Los Hermanos, da música O Vencedor, duas emoções conflitantes me invadem. A primeira que foi muito boa a idéia de filmar a platéia, de mostrar o público, uma homenagem a quem é fã e desembolsa uma graninha para vê-los tocar ao vivo. É de dar frio na barriga a participação dessas pessoas, a empolgação e emoção que eles causam.

Mas a segunda impressão me deixa um pouco preocupado, pois quem olha mais de perto pode notar comportamentos estranhos do público: alguns de olhos vidrados, repetindo as letras como mantra, como em transe total e absoluto com a letra da canção.

Mais um argumento para a teoria sobre as direções semelhantes com Legião Urbana que a banda está tomando. Claro que não é por interesse dos integrantes, mas sim uma combinação entre as letras da banda e um público carente de ídolos, de cantores que falem exatamente o que ele quer ouvir.

Tudo bem que é quase tudo sobre dor de cotovelo, sobre amores que não deram certo, mas é exatamente isso que causa tanta empatia com o público. Afinal de contas, quem lê isso aqui e nunca sofreu por amor, por favor que se belisque para sentir se é real.

É a estória de todo mundo, feita de forma bonita ao ritmo de rock e samba-canção, o que com certeza torna tudo ainda mais tocante, e também mais passível de mal-entendidos.

No auge da Legião, Renato Russo era abordado em vários lugares por pessoas perturbadas que o acusavam de ter contado a estória de suas vidas em canções como Ainda é Cedo, ou de fãs que de alguma maneira torta se convenceram de que ele era sua alma gêmea, o homem destinado para eles pelo destino.

Como todos sabem, isso não foi bom para ele, tendo inclusive sido atacado e estrangulado por uma pessoa em um show de Brasília.

Claro que isso é somente um lado da moeda, um risco que toda banda que atinge um sucesso estrondoso pode correr. Mas por exemplo, não consigo imaginar fãs do Charlie Brown Junior perseguindo os seus integrantes por algo que mais grave que um passeio de skate. O pessoal do Los Hermanos fala sobre o coração, e queira ou não o coração é imprevisível.

Mas tudo isso, claro, é contornável. A banda é talentosa, parece ainda ter muito fogo pra queimar, desde que mantenha a cabeça e o coração no lugar.

Só o tempo poderá dizer. Mas torço por eles.

Escrito por ADOLFO COLEN às 2:34 AM

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Quinta-feira, Março 25, 2004

Fórmulas Básicas

Já não é de hoje que imagino que este assunto dá um texto, afinal, desde quando somos bem jovens e começamos a aprender inglês e conseqüentemente a entender boa parte das músicas que escutamos podemos perceber a similaridade entre as letras de determinados estilos. Há até aquelas famosas brincadeiras de internet, como escreva uma canção Tribalista, ou seja igual ao Humberto Gessinger, mas os padrões não se restringem a 2 ou 3 compositores da música nacional.

Existe quase um dogma que diz que letras de Heavy Metal devem falar de dragões, criaturas mitológicas, bestas... EUA, Inglaterra, Alemanha, Dinamarca... não importa de onde sejam as bandas, nas letras encontraremos estes temas. Da mesma forma temos o Punk Rock e as letras de protesto político, muitas vezes tão idiotas quanto os próprios cantores. Do RAP ou Hip Hop nem precisaria comentar, só falam em drogas "get high", violência ou libertinagem, ninguém faz um Rap para exaltar um sentimento real, muito embora possamos escutar "músicas???" como Vem Cristiane, exaltando a "musa???" da comunidade.

Óperas... geralmente falam de histórias de tragédias, doenças, traições. A morte e a melancolia estão muitas vezes presentes, mas não é algo tão limitado. Não sou conhecedor delas, muito menos admirador, mas sei que existem óperas variadas, muitas vezes ligadas ao folclore, ou adaptações literárias, já o rock se prende a cliches, mas isso talvez encontre explicação na falta de naturalidade com que temas variados possam soar com guitarras distorcidas... Tormentos pessoas? Lamentos? Corações partidos? Press Play, vc está diante de um CD de Alternative Rock...

E me pergunto sempre: isso me acrescenta alguma coisa? A resposta eu não sei dar, mas independente de qual for nem tudo que eu faço é com a intenção de me acrescentar algo...

Escrito por GUSTAVO MACIEIRA às 12:41 AM

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Sábado, Março 20, 2004

Pitty - Ballroom 19/03/2004

Como enviado especial para roubadas lá estive ontem no Ballroom, assistindo Pitty. Vocês devem estar se perguntando: "Por que cargas d'água, em uma sexta que ainda tinha Titãs (não melhora muito), festival Mulheres no Rock e Jethro Tull, dentro de um fim de semana que ainda reserva atrações como B.B. King e The Chevelles, você (eu) estava assistindo Pitty?" Confesso que não conseguí parar de pensar em uma resposta durante um minuto sequer, mas não cheguei a conclusão nenhuma.

A parte positiva do show é que desfiz uma curiosidade, qual seja, conhecer o som do Arkham e Forgotten Boys. A primeira banda está abaixo da crítica, não adianta eu tentar dar uma nota aqui, a pior que poderia dar ainda seria boa demais para o que eles merecem. Banda de Trash Metal que nem ao menos sincronia instrumental tem... a segunda faz um punk rock deveras inexpressivo, mas após a banda de abertura parecia o Beatles de tão boa.

Falando da protagonista da noite muitas impressões foram confirmadas. A banda de apoio é realmente boa, ela leva o show numa boa, poderia até falar que canta bem, mas as virtudes param por aí. Com letras regadas de clichês, conforme dito anteriormente por Adolfo, que fez uma resenha de seu CD, e melodias muito fracas, muito em função do mau uso de palavras nas composições e no encaixe forçado de clichês como "o homem é o lobo do homem" ou "esquecí as regras do jogo, não posso mais jogar".

O show transcorria bem animado, com as famosas rodinhas e o público pulando e cantando animadamente, todavia, essa animação não durou por muito tempo, chegando a um ponto da cantora falar para a platéia que esta estava "-meio murchinha", emendando em seguida um protesto: "- esse lugar aqui não vende bebida não? O que é que está havendo, vocês não beberam o suficiente?"

E o show continuou, cover dos Beatles, uma Jam session desastrada com o pessoal das bandas de abertura cujo resultado foi blasfêmia total, após fazer John, George, o quinto Beatle e suas mães e pais se revirarem no túmulo ela pegou a já moribunda música dos Ramones KKK took my babe away (vale lembrar que esta música já havia sofrido um golpe quase mortal no tributo aos Ramones quando interpretada por Marilyn Mason) e terminou de enterrá-la, tal era o desentrosamento entre as bandas que, a essa altura estavam todas no palco gritando.

Foi um fim melancólico para o show de uma mulher que admite que para curtir sua música só com muito álcool na cabeça... eu, um pobre coitado que só tinha bebido uma garrafa de água mineral, acabei por não aproveitar seu portentoso som...

Pausa para reflexão: alguém precisa dizer a essa gente que toca por aí que jam session pode até ser uma coisa legal, mas só será quando houver entrosamento entre as bandas, um mínimo de ensaio e, sobretudo, bandas competentes no palco, caso contrário, é tragédia na certa.

Por tudo relatado não me resta outra opção senão dar a nota mais baixa possível a noite no Ballroom. Como não ficou convencionado aqui se a nota mais baixa seria 0 ou 1 deixo em aberto o resultado final...

Escrito por GUSTAVO MACIEIRA às 11:37 AM

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Terça-feira, Março 16, 2004

MTV:Ronda Pela Nova Grade


Eu canso de falar de minhas saudades pela MTV da primeira metade dos anos 90. Inclusive já existe essa reclamação em um dos posts iniciais do 4-track, e não vou chover no molhado. O modelo atual é o que traz lucros à emissora, e continuará assim, uma emissora que cobre comportamento adolescente para um público adolescente.

Só continuo a achar que o nome deveria ser modificado, pois de music a emissora não tem praticamente nada.

Mas vamos ao que quero fazer, dar uma geral na "nova" programação.

O Pulso continua o mesmo, ainda que digam que foi totalmente "reformulado": músicas cortadas pela metade, mas ainda interessante pelas fichas musicais e pelo carisma dos apresentadores. Boa idéia colocar fichas de bandas, apesar de não concordar com algumas influências e influenciados citados por lá.

A ausência (parece que provisória) no VideoClash mostra o quanto o programa não faz falta. Afinal, as bandas que disputavam eram sempre as mesmas, e já existe um espaço enorme na grade para se ouvir Linkin Park, Britney Spears e os onipresentes Iron Maiden e Guns And Roses. Mas Didi está voltando, e o show deve continuar...

A programação musical especializada tem um horário ingrato, mas me parece uma boa idéia fazer os espectadores programarem as setlists, afinal são os poucos e fiéis fãs que mantém o programa no ar, apesar dos pesares. Faz falta um apresentador para o Lado B, não canso de dizer.

Rafael pelo menos mostrou melhoras ao apresentar o Jornal: já dá pra entender o que ele diz, e não se enrola mais tanto com o teleprompter. Mas seu programa, o Rafa-Tá-Tá, é ridículo, uma tentativa porca de fazer bootlegs, a mais nova moda do mundo musical. Eu, pelo menos, não quero o ver de cócoras olhando para um video com som trocado, de forma "brilhante".

Cazé continua um chato, uma cópia exata de nossos presidentes de DCE. A todo momento quer mostrar sua inteligência avantajada para nós, pobres espectadores que temos opiniões erradas sobre assuntos tão instigantes como o trote de calouros e o machismo. O Buzzina poderia ser um programa interessante de discussões, se não tivéssemos o tempo inteiro que ouvi-lo entrevistar as pessoas de quem discorda com uma ironia nada fina. Se quiser palanque, que vire político.

Top Top é um programa bacana para quem gosta de listas, como eu e qualquer viciado em música.

Daniela Ciccareli, além de bonita, é engraçada de um jeito desengonçado. Seus programas pelo menos são divertimentos leves e sem pretensões.

João Gordo é o melhor entrevistador acima do peso de nossa televisão, e possui o melhor programa da emissora.

A faixa gringa continua a demonstrar o total alienamento de uma geração. E está fazendo escola, vide o ridículo Pé na Bunda. É ver pra crer.

O Disk é o Disk. Jabaculê que corre solto. Pergunto se alguém como eu se lembra do Felipe Dylon tocando sem parar na programação sem nenhum impacto por uns três meses, e depois de "ser votado" no Disk ter virado um fenômeno. Muito estranho...Pelo menos ainda não vi na parada o Seu Cuca, a banda que roubou descaradamente todo o andamento de Just Like Heaven do Cure em uma de suas canções.

E é isso. Quem quiser ouvir música na music television tem duas opções: escute à tarde a coleção maistream ou de manhã os flashbacks.

Pode ser isso, mas é muito pouco.

Escrito por ADOLFO COLEN às 6:32 PM

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Quinta-feira, Março 11, 2004

Fora de Radar

Grant Lee Buffalo - Mighty Joe Moon(1994)

Tudo começou com uma banda californiana chamada Shiva Burlesque, que iniciou carreira no fim dos anos 80, fazendo um rock bem direcionado ao West Coast Sound do final dos anos 60. Traduzindo: pitadas de The Byrds, Buffalo Springfield, toda a raiz lisérgica do rock americano. Mas talvez a maior influència seria do The Doors, tanto pelas ambientações grandiloquentes como na voz que às vezes beirava a imitação de Jeffrey Clark, o líder então da banda.

Mas daí que sairiam duas das pessoas mais importantes do rock americano na primeira metade dos anos 90, e que formariam o Grant Lee Buffalo: Paul Kimble, e claro, Grant Lee Phillips. Ao ouvir o primeiro disco deles, chamado Fuzzy, já dá pra notar a diferença entre o Shiva e o Buffalo. Enquanto no primeiro se dava valor à psicodelia como forma mais agressiva, em canções longas e cheias de distorção, no Grant Lee Buffalo as coisas eram diferentes: um som mais voltado ao acústico, ao sutil, se ainda com os reverbs e delays, típicos de bandas do acid rock, aparecendo aqui e acolá.

Interessante mesmo é perceber como Grant Lee Phillips é um cantor muito melhor que Clark, com uma voz versátil e nunca menos que linda em todas as canções. Ele passa dos graves aos agudos com uma elegância que poucos vocalistas podem realmente alcançar.

Com o lançamento de Mighty Joe Moon, a banda parece ter atingido o ápice creativo e construção de seu som próprio, em um album que consegue ser instigante, e calmo; emocionante e barulhento, quase sempre dentro de uma mesma canção. É a cristalização de um tipo de rock que parecia fora de contexto em épocas de grunge, em que a melodia se insinuava meio serpenteante, com arranjos ricos em instrumentos de cordas, onde o dedilhado se impõe sobre a palhetada.

Começa com Lone Star Song, que com apenas um riff simples apresenta o disco. Mas que riff...Preguiçoso mas excitado, com toques de estática e ecos de country, fazendo a cama perfeita para a apresentação da voz de Phillips, imponente e ao mesmo tempo suave. Um dos melhores inícios de álbum que conheço, que fica melhor ainda com a entrada da gaita no final.

Mockingbirds é a segunda música, que tocou até com certa frequência na MTV no início dos anos 90, e nos leva a um lugar diferente da primeira. Aqui o som é mais delicado, onírico, se aproveitando do violoncelo e do falsete impressionante que canta o refrão.

A partir daí o disco se torna mais um reflexo da segunda música do que da primeira, já que raramente se ouvirá a guitarra sobrepondo o piano e baixo de kimble e o violão e voz de Phillips. Canções de contornos poéticos envolvendo bases leves como noites de verão, mas aqueles passados, aqueles que não voltam mais.

Passa pelo romantismo de Honey Don´t Think, a luxúria de Lady Godiva and Me, sempre de forma brilhante e impressionista. Voltam ao rock mais básico e melodioso em Side By Side e terminam com uma balada de violão discutindo a mortalidade, Rock of Ages, como a saída perfeita de um disco perfeito, como a possível saída de cada um.

Nunca mais superaram esse disco. Fizeram mais três albuns, e se separaram. Hoje Grant lee Phillips faz baladas de violão no seu terceiro solo, mas nada que supere a mágica de Mighty Joe Moon.

Cotação: 5 estrelas

Músicas: Lone Star Song/ Mockingbirds/ It Is The Life/ Sing Along/ Mighty Joe Moon/ Demon Called Deception/ Lady Godiva And Me/ Drag/ Last Days of Tecumsen/ Happiness/ Honey Don't Think/ Side By Side/ Rock of Ages

Músicas-Chave: Rock of Ages/ Mocking Birds/ Honey Don´t Think/ Rock of Ages


Escrito por ADOLFO COLEN às 3:04 PM

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Segunda-feira, Março 08, 2004

Nokia Trends - Praia do Flamengo 07/03/2004

Coube a mim a árdua tarefa de fazer uma crítica do show de "Fatboy Slim" que ocorreu este fim de semana na Praia do Flamengo. Árdua, eu explico, pois não sou admirador do estilo, quissá sei a diferença entre Drum 'n' Bass, Techno, Trend, Trance; passei o show inteiro desviando para que multidões passassem de um lado para o outro, ou seja: não prestei a mínima atenção ao show... mas como diria Beethoven em seu leito de morte: "Até o mais vil dos seres humanos merece ser escutado!"

Multidão... essa é a única palavra que digo sem medo de errar sobre o show. Ele atraiu uma multidão para o local. O cenário com o palco encobrindo o morro da Urca estava perfeito. Os aviões decolando do aeroporto, os barcos na Baía de Guanabara, a Lua nascendo por traz dos morros... esse foi o verdadeiro espetáculo a ser visto.

Não falarei, ao contrário do que gosto de fazer, de todos os shows. Não sei o nome do pessoal que tocou, apenas do DJ Marky e do Fatboy e já adianto que o primeiro praticamente humilhou o segundo. Não mudei de opinião. Para mim música eletrônica continua sendo trilha sonora de alucinados por drogas sintéticas, quer dizer, só muito louco para se empolgar com batidas repetitivas, mas como há quem diga que rock é coisa para maconheiro e cheirador (e eu não sou nem um nem outro) não levarei esse argumento preconceituoso em consideração.

Por que digo que o Marky praticamente humilhou o Fatboy? Simples, o Marky manipulava a mesa de som, o cara arranhava as bolachas sem dó, ele mostrou no palco que era realmente bom no que se propunha a fazer, gostemos ou não, ao passo que o Fatboy trouxe um monte de samplers e efeitos gravados que colocava para rodar (quem me garante que ele é quem faz aquilo?), passou o show inteiro balançando os braços como um "bonecão de posto", me lembrando muito daquele Rap que eu não me lembro como é... cheguei a conclusão que definitivamente não pretendo nunca experimentar o "E", afinal, se tomar aquilo significa gostar de música eletrônica eu prefiro a morte e ainda que o Fatboy Slim não passa de uma fraude...

Desculpem-me pela visão pouco profissional do evento, mas é que eu sou do tempo que Marky era Marky Ramone... Hey! Ho! Let's Go!

Escrito por GUSTAVO MACIEIRA às 9:28 PM

Ficha Técnica:


Sexta-feira, Março 05, 2004

Resenha antiga, do Cardiotopia, mas esse disco nunca pára de tocar aqui.

Essencial

Nick Cave - The Boatman's Call (1996)

Nick Cave é um poeta, com a voz que todo poeta sonharia em ter. Com tom entre o delicado e desesperado, canta o amor, Deus, o diabo e nossos próprios demonios interiores. Começa com o punk desesperado e cheio de blues de sua primeira banda, o Birthday Party, até chegar aos tons mais líricos e agridoces de sua discografia mais atual.

A grande virada talvez tenha sido o disco The Good Son, gravado em São Paulo, cidade na qual morou por alguns anos, até se casando com uma brasileira. Nesse disco o piano começa a tomar conta das canções, e até mesmo faz uma versão de um hino pentecostal, cantado em um português quase sem sotaque (Foi na Cruz). Um amálgama de suas duas maiores obsessões: o amor e a religião.

Mas o ponto alto de sua carreira, em minha opinião, é esse The Boatman´s Call.

É um disco de separação, doído e ao mesmo tempo doce. Nessa época ele havia acabado seu relacionamento com PJ Harvey, e a sombra dela aparece por todo o disco. O piano e os violinos se tornam instrumentos de primeiro plano, enquanto as guitarras se aquietam por quase todas as músicas.

Inicia já com um clássico, a incrível Into My Arms. Ali, só na voz e no piano ele destila o caso de um amor que supera as diferenças, balançando crenças, reunificando desejos. Ele diz que não acredita em um Deus intervencionista, mas sabe que ela acredita, e que portanto vai pedir a ele que a mantenha do seu lado. A religião retorna em Brompton Oratory, onde Cave canta o profano e o sacro quase em sequência:

"Uma beleza impossível de se manter
O sangue separado em pequenos goles
O seu cheiro ainda em minhas mãos
Enquanto eu trago a xícara para meus lábios

Nenhum Deus acima no céu
Nenhum diabo no fundo do mar
Poderia ser tão bem sucedido como você
Em me colocar de joelhos"

As lembranças de PJ Harvey ainda se tornam mais fortes em canções como Black Hair e West Country Girl, contos de saudade, tristeza, decepção, talvez melhor exemplificados na música onde o título já diz tudo : Where Do We Go Now But Nowhere?

O amor pode ter ido para lugar algum, mas Cave sobreviveu, e escreveu sobre isso. E de uma maneira muito bonita, apaixonada, como pianos que fazem ecos nas madrugadas mais frias.

Como ele mesmo canta: "Eu acredito no amor/ e querida sei que você também/e acredito em algum tipo de caminho/por onde possamos caminhar, eu e você.

Musicas: Into My Arms/ Lime Tree Arbour/ People Ain't No Good/ Brompton Oratory/ There Is A Kingdom/ (Are You) The One I've Been Waiting For/ Where Do We Go From Here But Nowhere/ West Country Girl/ Black Hair/ Idiot Prayer/ Far From Me/ Green Eyes

Musicas-Chave: Into My Arms/ Brompton Oratory


Escrito por ADOLFO COLEN às 2:41 PM

Ficha Técnica:


Segunda-feira, Março 01, 2004

Desconstruindo Springsteen

Bruce Springsteen - Born To Run (1975)

Ok, eu admito: dos 15 aos 25 eu realmente desprezava Bruce Springsteen. E era por pura desinformação, pelo clássico não vi e não gostei tão paulofranciano, o maior impecilho existente quando somos mais jovens.

Mas também, como o senso comum pinta o sujeito não ajuda, de maneira alguma. Vejamos: rock de estádio, punhos no ar, bandeiras americanas onipresentes e bandanas. Meu Deus, bandanas! O disco de maior sucesso se chamava Born In The USA, com a música título repetindo o bordão por todo o refrão.

Mal sabia que a letra não era uma apologia ao american way of life, mas a estória de um veterano do Vietnã e de suas dificuldades de sobreviver na economia liberal americana dos anos 80. Mas mesmo assim, Springsteen ainda é um artista muitas vezes muito regional, em sua maneira de contar a vida do americano médio, que convenhamos, está muito longe da nossa realidade.

Mas, cuidado. À medida que se escutamos suas canções, vamos cada vez mais nos aprofundamos em um universo mais próximo de nossa realidade pessoal. Aquele mundo de emoções cruas, de amores que deram errado e de esperança na estrada como forma mais próxima de real liberdade, mesmo que por alguns dias apenas. E é nesse ponto que ele fala fundo para a gente, é nesse momento que suas músicas cheias de grandiloquência realmente nos pegam pela garganta.

O disco que está aí na foto é provavelmente o mais particular, e ao mesmo tempo universal de toda sua carreira, e por isso mesmo o que mais me toca. Nele se fala de amizades antigas, de como dói crescer, de como machuca desejar uma menina e não conseguir fazê-la te notar. Está tudo ali, em oito faixas somente.

Começa com o clássico Thunder Road, talvez uma de suas músicas mais queridas, e com certeza uma das melhores letras que já ouvi sobre romances condenados (quem quiser conferir, tenho a letra traduzida no Cardiotopia). Seja na gaita inicial, ou na emoção de sua voz ao começar os versos, já dá para saber que vai ser uma viagem especial.

Em Tenth Avenue Freeze Out, a E Street Band mostra a que veio: um boogie meio malandro, mezzo anos 50-mezzo 60, muito interessante. A partir daí, nota-se a influência de Phil Spector e seu wall of sound no som da banda, já que existe toda aquela muralha de instrumentos criando um som cheio de ecos, talvez querendo pelas harmonias transmitir uma emoção fortíssima.

E é nesse caminho que segue o disco, o de canções fortes com letras elaboradas, expressando uma esperança contagiante mesmo na hora de maior desespero, uma necessidade de highways mais largas para correr livre, e fugir da mediocridade. Quem conhece a música título sabe do que estou falando, já que nela se mesclam todas essas tendências, criando um clássico instantâneo, daqueles que se cantam juntos e (porque nâo) com o punho cerrado no ar.

E não, mesmo empolgado, sem bandanas, por favor.

Portanto, se é preciso somente um disco para se começar a gostar desse grande compositor americano, Born To Run é sua escolha.

Afinal, é aqui que começa, como ele mesmo diz em Thunder Road: This town is made for loosers, and I am pulling out of here to win.

Cotação: 5 estrelas

Músicas: Thunder Road/ 10th Avenue Freeze Out/ Night/ Backstreets/ Born To Run/ She´s The One/ Meeting Across The River/ Jungleland

Músicas- Chave: Thuder Road/ Backstreets/ Born To Run


Escrito por ADOLFO COLEN às 10:00 PM

Ficha Técnica:


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