Adolfo Colen
Pedro Esteban
Gustavo Macieira
Tungo, O Dungo
Quarta-feira, Maio 12, 2004

Indispensável

Van Morrison- Astral Weeks (1968)

Para mim, é especialmente difícil falar desse disco, não somente porque Van Morrison é quase impossível de categorizar, mas também por ser um de meus 3 discos prediletos de todos os tempos. Vou começar um pouco pela história do compositor.

No início dos anos 60 o irlandês Morrison era mais conhecido como o cantor do Them, uma banda de Rythm'n'Blues coadjuvante da Invasão Britânica, que teve seu maior hit em Gloria (posteriormente regravada pelos Doors). Faziam um tipo de música bem calcada no blues, com ritmos nervosos e a interpretação rascante e enfurecida do cantor. A banda acabou na segunda metade dos anos 60, e Van Morrison ficou por algum tempo no ostracismo. Até chegar 1968...

Neste ano, ele se juntou a alguns instrumentistas de jazz para gravar em dois dias o que seria Astral Weeks. Segundo a lenda, eles mal conversaram entre si, tendo tocado e arranjado as músicas em total improviso. É portanto maravilhoso que tenham conseguido tal nível de unidade, pois Astral Weeks se parece com uma longa suíte, com vários movimentos e vários sentimentos intercalados.

O album abre com a canção-título, uma reflexão folk sobre o amor, e sobre o renascimento pelo qual temos que passar quando um amor entra, e outro sai. As texturas simples de violão são sobrepostas a baixo e percussão leves, enquanto Morrison canta lindamente uma letra misteriosa e tocante. Já nessa primeira música nota-se a tendência em repetir ininterruptamente frases da letra, como se ele quisesse achar o sentimento certo para as palavras, não parando de cantá-las até se sentir satisfeito (ou cansado), ou como ele mesmo dizia em seus shows: It's too late to stop now.

Seguem-se Beside You e Sweet Thing, que seguem a maneira livre de se fazer música do disco, sem refrão, sem estrofes definidas, somente um fluxo ininterrupto de palavras e fraseados dos mais variados instrumentos, como vibrafones, violinos e flautas. Misturam estilos como blues, jazz e folk, em um ser híbrido, e único.

Cyprus Avenue é construída sobre um fraseado inicial de cravo, crescendo até se tornar algo tão grandioso, entremeado por violinos, guitarras e as frases obsessivas de Morrison, que se torna uma valsa, e acaba. The Way Young Lovers Do é uma brincadeira jazzística, com bela letra, e que parece ter sido tocada com um sorriso perene nos lábios.

Chegando em Madame George, o ouvinte tem a ilusão de ter entendido o disco, e saber o que vem a seguir. Ledo engano. A música é uma balada triste, mais simples que as outras, onde a voz de Van Morrison brilha, e onde a letra se torna tão misteriosa quanto apaixonada, e também o momento em que a repetição das frases se torna mais emblemática e emocionante. Nela ele canta várias vezes: The love that loves to love that loves to love the love that loves to love. Pode parecer bobo, mas é tão bonito que até causa arrepios.

As duas músicas finais são Ballerina e Slim Slow Rider. A primeira é sexy e sinuosa, enquanto a última é melancólica e mais direta. As últimas palavras do disco são essas: Saw you early this morning/ with your brand new boy/ and a cadillac/you´ve gone to somewhere/and i know you won´t be back/I know you´re dying/and you know I know it too/ everytime i see you/ i just don´t know what to do.

Fecha maravilhosamente um dos discos mais misteriosos e bonitos de todos os tempos. Totalmente inclassificável, mas completamente necessário para quem gosta de música feita com o coração nos dedos, e na garganta.

Cotação: 5 estrelas

Músicas: Astral Weeks/Beside You/Sweet Thing/Cyprus Avenue/The Way Young Lovers Do/ Madame George/Ballerina/Slim Slow Rider

Músicas-Chave: Ouça do princípio ao fim.


Escrito por ADOLFO COLEN às 12:55 AM

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